Crianças projetam futuro de Salvador em comemoração aos 474 anos

Portal A TARDE entrevistou estudantes das escolas Maria Felipa e Agnelo de Brito - Foto: Matheus Calmon | Ag. A TARDE

Alunos das escolas Maria Felipa e Agnelo de Brito falaram sobre perspectivas para a cidade nos próximos anos

Fonte: atarde.com.br

EDITADO 071NOTICIAS

474 ANOS ANIVERSÁRIO DE SALVADOR CAPITAL BAIANA

Salvador chega aos 474 anos nesta quarta-feira, 29, e a data gera reflexões e perspectivas para o futuro da cidade. Tendo em vista o papel transformador das crianças e suas vivências na capital baiana, o Portal A TARDE conversou com um grupo de estudantes da Escola Afro-brasileira Maria Felipa, localizada no bairro do Garcia, e da Escola Municipal Agnelo de Brito, na Boca do Rio. 

Os convidados da Escola Afro-brasileira Maria Felipa são: Clara Soares, de 7 anos, futura médica veterinária; Gabriel Hipolito, de 9, futuro advogado; João Vitor Gonçalves, de 11, futuro advogado; e Jonas Gustavo Silva, de 12, futuro jogador de basquete.

Já os participantes da Escola Municipal Agnelo de Brito: Davi Santos, de 10, futuro jogador de futebol; Eli Asafe Carvalho, de 10, futuro cientista e inventor; Luna Vitória Lima, de 10, futura médica cirurgiã; e Nicolas Macedo, de 10, futuro empresário e jogador de futebol.

Além da presença dos alunos, as pedagogas e professoras das instituições, Juliana Santana, e Mariana Patrocínio, respectivamente, também participaram da discussão. Em relação aos temas abordados no bate-papo, as crianças falaram sobre o que mais gostam em Salvador e o que esperam do desenvolvimento da cidade, entre outras impressões. 

Confira as respostas dos ‘herdeiros do futuro’ da capital baiana:

    O que você mais gosta em Salvador?

Clara Soares: Praia. Eu vou nos feriados, já que moro no Farol da Barra. A minha casa é aqui e a praia tá aqui. Aí nos feriados, minha mãe gosta de ir. Eu gosto da comida. Davi Santos: Eu gosto dos shoppings, dos mercados, da minha casa, das praias. Eli Asafe Carvalho: Eu gosto do metrô, do shopping, dos cinemas, das escolas também. Gabriel Hipolito: Eu gosto muito das praias, da comida nativa e ancestral daqui. É muito bom morar em Salvador. João Vitor Gonçalves: Eu gosto de ir para o Farol da Barra, também em Piatã, Itapuã. Eu gosto do Pelourinho. Gosto de tudo da cultura de Salvador. Jonas Gustavo Silva: A cultura, a lindeza que Salvador tem, o Carnaval. Luna Vitória: O carnaval é muito bom. E da nossa cultura, a dança. Nicolas Macedo: Lugares turísticos, restaurantes, comidas típicas, praias, lugares de passear.

    E o que não gosta?

Clara Soares: O trânsito. Eu durmo no carro para vir para cá. Tem uma rua que eu passo e sempre tem muito trânsito. Daí teve um dia que a gente passou e estava sem trânsito e minha mãe falou que era milagre. Davi Santos: Os caminhões de lixo. É um fedor. Eli Asafe Carvalho: Loja onde vende peixe, não gosto. O fedor é horrível. Gabriel Hipolito: Eu não gosto da violência, da insegurança, do racismo e da intolerância religiosa. João Vitor Gonçalves: A desigualdade, pessoas morando nas ruas. Jonas Gustavo Silva: Intolerância racial que eu acho que precisa melhorar. Para mim somos todos iguais. Luna Vitória Lima: Da violência, muita, que aqui tem, a poluição, não que fora não tenha, mas aqui tem muita e isso volta pra gente, nós mesmos fazemos o nível ser mais alto. Tem pessoas que dizem que a poluição está muito grande. As pessoas contribuindo queimando plástico, jogando na praia. Nicolas Macedo: Violência, vandalismo, essas coisas, prejudicam muito Salvador. Você vai passear e é assaltado no meio da rua. Eu não gosto disso.

Se fosse um governante, o que faria para melhorar a cidade?

Clara Soares: Eu queria que o mundo fosse mais limpo e também os animais, as pessoas respeitassem mais os animais. Davi Santos: Mais shoppings, mais casas, mais praias, mais mercados. Eli Asafe Carvalho: Mandaria fazer coleta de lixo nas praias e na cidade, mais farmácias, escolas, ajudaria os pobres dando algum dinheiro a eles. Gabriel Hipolito: Eu ia botar carros voadores para poluir menos o meio ambiente, aumentar o salário mínimo, diminuir o preço das coisas, não deixar os hospitais ficarem lotados e acabar com a violência. João Vitor Gonçalves: Eu iria mudar os prédios, colocar mais grama, plantar mais árvores. Ia deixar tudo bonito, maravilhoso. Iria doar todo o dinheiro para os pobres. Jonas Gustavo Silva: Iria melhorar a acessibilidade porque eu ando aqui na rua e vejo que tem pouca acessibilidade e iria melhorar muito para as pessoas com deficiência (PCDs). Luna Vitória Lima: Eu gostaria de mudar mais atendimentos em UPAs, tem gente que chega 5 da manhã e 6 da tarde ainda não foi atendido. Nicolas Macedo: Mais hospitais, mais casas, mais UPAs, pois tem mais pessoas sofrendo também. Mais restaurantes, reformar as estradas, botar postes nas ruas.

    O que você quer ser quando crescer?

Clara Soares: Veterinária. Porque eu gosto dos animais.

Davi Santos: Jogador de futebol.

Eli Asafe Carvalho: Cientista e inventor. Tenho muitas ideias muito divertidas que por enquanto criança só vai ter na minha imaginação. Posso inventar carros que se movem com o próprio lixo, já imaginou? Se tem muito lixo, ao invés de jogar fora ou no mar, bota dentro do carro como combustível. Isso melhoraria muito o mundo.

Gabriel Hipolito: Advogado. Porque minha mãe, minha segunda mãe, meu avô, meu pai são advogados. É muito advogado na minha família.

João Vitor Gonçalves: Advogado.

Jonas Gustavo Silva: Jogador de basquete

Luna Vitória Lima: Cirurgiã geral. Porque é um negócio que eu sempre me apaixonei pela medicina. Vejo tantas pessoas que não conseguem cirurgia porque não tem dinheiro. Hoje em dia quem tem mais dinheiro tem mais prioridade. Até a medicina tem preço. Hoje em dia tem hospital particular. Quem não tem dinheiro, vai em uma clínica, tem que marcar, é um processo muito grande, a pessoa está precisando muito e não vai conseguir na hora.

Nicolas Macedo: Jogador de futebol e empresário. Me divirto jogando bola. Quando for dia de jogo, eu vou jogar. E vou ser empresário também quando não estiver jogando.

    O que a cidade pode esperar de você no futuro?

Clara Soares: Uma adulta responsável.

Davi Santos: Um menino bom.

Gabriel Hipolito: Eu vou fazer muita coisa boa, defender muita gente, criar uns aplicativos novos para ajudar as pessoas.

João Vitor Gonçalves: Vou cuidar da natureza, plantar mais árvores.

Jonas Gustavo Silva: Uma pessoa que respeita todo mundo.

Luna Vitória Lima: Virar médica que é meu sonho e ajudar os necessitados, pois todas as pessoas que estão em cima também vieram de baixo. Então, é muito bom se preocupar com as pessoas que estavam do seu lado e as que você não conhece, ajudar.

Nicolas Macedo: Eu vou ser uma pessoa boa, não vou ter maldade, vou ser paciente. Não vou querer bater em ninguém. Não vou beber, só quero ser uma pessoa boa mesmo.

    Qual tipo de adulto você acha que a cidade precisa para ser um bom lugar?

Clara Soares: Um adulto responsável que saiba fazer escolhas.

Eli Asafe Carvalho: Precisa ter menos poluição, menos pobres, muito menos coisas más e espero que no futuro não tenha coronavírus. Espero que até lá todo mundo já esteja imunizado. 

Gabriel Hipolito: Um adulto preocupado com o meio ambiente.

Jonas Gustavo Silva: Uma pessoa que respeita todas as religiões, que respeita tudo.

Luna Vitória Lima: Hoje em dia bota muito em questão que as crianças têm que escutar os adultos, que são certos e tem que ensinar tudo. Na minha visão, crianças têm que ouvir os adultos e os adultos têm que ouvir as crianças, porque nem sempre o adulto pode estar certo.

Nicolas Macedo: Pessoas sem violência, sem maldade na mente. Sem querer bater, sem agressividade. O silêncio é a melhor resposta.

    O que você gostaria de fazer para contribuir para o futuro da cidade?

Clara Soares: Tirar os animais da rua que eu vejo bastante, mas com cuidado.

Davi Santos: Se as pessoas não morrerem, tirar essas doenças. Tendo mais vacinas, mais remédios.

Eli Asafe Carvalho: Mais shoppings, mais prédios, muito mais lugares, novos edifícios, tipo esculturas, também modernizar o trem e outro sistema de locomoção.

Gabriel Hipolito: Eu vou fazer muita coisa boa, defender muita gente, criar uns aplicativos novos para ajudar as pessoas.

João Vitor Gonçalves: Iria mudar tudo, plantar mais árvores.

Jonas Gustavo Silva: O fato das pessoas respeitarem as outras. Para mim, o respeito já é tudo. A escola é um bom passo, um bom começo.

Luna Vitória Lima: Isso tudo que eu falei pode esperar, pois eu prometo que vou fazer. Tem que ser de palavra, se você promete, tem que fazer, comigo é assim.

Nicolas Macedo: Eu pretendo fazer uma base militar, treinando para combater a violência. Vou fazer mais delegacias.

Com a palavra, as professoras

Também questionada sobre o futuro de Salvador, a professora da Escola Municipal Agnelo de Brito, Mariana Patrocínio, acredita que a capital baiana está em boas mãos considerando a postura dos seus alunos. Embora haja otimismo para o que está por vir, a pedagoga traz um alerta para a importância de manter a motivação no presente e no investimento na educação. “Eu acho que o futuro está na mão das crianças. Então, a gente tem que trabalhar hoje para que a cidade continue sendo importante, mas, que acima de tudo, a gente veja como está indo a educação. Os professores estão sendo valorizados? O que as crianças querem hoje e precisam? Eu, como mãe, fico pensando muito, como será o futuro? Hoje a gente está aqui. E amanhã, como será? A gente está vendo essas crianças indo no caminho certo? A gente está escutando as crianças ou só está querendo que elas fiquem enfileiradas e ouvindo o que a gente está dizendo? Essas sementinhas de hoje, como a gente está semeando, cultivando para o amanhã?”, aponta.

Mariana Patrocínio é professora da Escola Municipal Agnelo de Brito
Mariana Patrocínio é professora da Escola Municipal Agnelo de Brito|  Foto: Matheus Calmon | Ag. A TARDE

Ainda segundo a professora, além da preocupação com o presente, o passado é uma peça relevante para pensar no futuro da capital baiana.

“Eu sempre costumo dizer que o futuro é ancestral. Tudo que a gente quer para o futuro. Tudo que a gente quer para o futuro, tem que buscar na ancestralidade, valorizar e honrar quem veio antes da gente para que no futuro isso se concretize. A gente não pode achar que veio do nada. Salvador, que é uma cidade bem baseada nessa questão da ancestralidade negra, também precisa ver isso. Não é só musicalidade, espiritualidade, mas é tudo que a gente construiu, nosso jeito de ser, de fazer as coisas aqui, isso também seria importante para o futuro”, argumenta.

Já a professora Juliana Santana, da Escola Afro-brasileira Maria Felipa, diz que enxerga uma “consciência crítica e reflexiva” ainda maior entre as crianças. 

“Hoje essas crianças têm outra visão do que é a cidade, das dinâmicas que acontecem em Salvador. Eu acho que essa consciência crítica que eles vêm construindo desde a infância vai ter uma repercussão muito positiva no futuro. Então, sim, eles vão ser cidadãos incríveis”, afirma.

Juliana Santana é professora da Escola Afro-brasileira Maria Felipa
Juliana Santana é professora da Escola Afro-brasileira Maria Felipa|  Foto: Matheus Calmon | Ag. A TARDE

Além disso, a educadora ressalta a atuação dos adultos na garantia de um futuro promissor e uma sociedade ‘menos nociva’. Para ela, algumas ‘lutas’ precisam ser travadas para propiciar um ambiente melhor para as crianças nos próximos anos, como o combate ao racismo, homofobia, violência de gênero.

“Eu costumo dizer que a nossa geração dos 20, 30, 40 anos está construindo a sociedade em que essas crianças serão adultas, é o legado que estamos deixando para elas. Que movimentação a gente está fazendo hoje para que eles possam ter condições de vida diferentes às que a gente teve e encontrar uma sociedade menos nociva”, destaca.

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